Brasileiro, mas cidadão do mundo com base em Londres. Assim podemos definir o jornalista Marcelo Torres, correspondente do SBT na Europa há cinco anos. Formado pela Universidade Estadual Paulista e com mestrado em Jornalismo Internacional pela Universidade de Westminster, Marcelo tem na bagagem 14 anos de experiência em reportagens para jornal, rádio, televisão e internet.
Como repórter de TV, iniciou a carreira em emissoras da Rede Globo no interior paulista, tendo atuado como repórter do Jornal Nacional em Sorocaba. Em Seguida, integrou o jornalismo da Rede Globo Minas, em Belo Horizonte, também na equipe do JN. Nos últimos cinco anos, Marcelo vem se dedicando ao noticiário internacional. Trabalhou para a BBC, ajudando a implantar o primeiro serviço de televisão em língua não-inglesa. Em 2005, mudou para o SBT, contribuindo na implantação da nova fase do jornalismo da rede.
Com a palavra, o próprio Marcelo.
Rodrigo – Por que ser jornalista?
Marcelo - Para presenciar fatos históricos. Para ter a chance de informar. Para compartilhar minhas descobertas sobre o mundo.
Rodrigo – Como é reportar aos brasileiros o que de mais importante acontece lá fora? Por que Londres?
Marcelo - É um trabalho constante de traduzir realidades tão diferentes da nossa. Dar sentido a fatos que ocorrem em lugares distantes. Londres é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Uma colcha de retalhos étnica e cultural e, por isso, uma base interessante para entender o mundo globalizado.
Rodrigo – Qual foi o maior desafio na sua carreira? O momento mais tenso ou delicado?
Marcelo - Minhas viagens para o Iraque e o Afeganistão. Na mala, não levei só a obrigação de produzir matérias interessantes. Na mente, o tempo inteiro, martelava o pensamento de que eu precisava me proteger e voltar inteiro para casa.
Rodrigo – Em 14 anos de jornalismo, você já percorreu 40 países. Que lugar lhe marcou mais?
Marcelo – A Etiópia. Ao conviver brevemente com os nômades nas savanas, testemunhei como a vida pode ser dura para quem não dispõe dos mínimos confortos da vida moderna que nós temos de mão beijada. A dureza do ambiente também endurece o coração das pessoas.
Rodrigo – De que forma você acha que a tecnologia e as mídias sociais impactam no jornalismo?Marcelo - A tecnologia transforma o jeito de contar uma história. Se aceitamos que a própria língua é uma tecnologia humana, percebemos que nosso código para se comunicar muitas vezes filtra nossas emoções e intenções. As tecnologias mais modernas também interferem. A mesma internet que muita gente achou que poderia matar os livros está obrigando muito mais gente a escrever – em que pese a qualidade da escrita. O twitter ensina os usuários a resumir a história. As mídias sociais incentivam todos a criar uma “persona”. Eu não apenas envio um e-mail a um amigo, mas também envio uma mensagem a ele com a intenção de que todos os meus contatos a vejam. É a esfera pública do bate-papo entre vizinhos. Uma fofoca mais globalizada. Para o jornalismo, muitos desses “gritos” dos usuários das mídias sociais acabam sendo selecionados para ecoar em audiências maiores. Os orkuteiros fizeram personagens de reportagens para a tevê. Acho que no caso das mídias sociais, serve o mesmo conselho que sigo ao usar a Wikipedia: são ótimos pontos de partida, mas péssimos pontos de chegada. A informação jornalística precisa ser apurada e investigada. Só isso a diferenciará da fofoca do vizinho.
Rodrigo – É preciso ter diploma de jornalismo para ser jornalista?
Marcelo - Sim. É preciso entender os conceitos de ética jornalística e compreender a força da mídia. A prática, escrever lead, gravar passagem, realmente poderia ser ensinada num curso técnico. A universidade justamente tem a função de produzir profissionais com capacidade transformadora na sociedade. Agora, se o diploma precisa exatamente ser de jornalismo, não tenho tanta certeza. Aqui na Inglaterra o que se vê muito é alguém se graduar em outra área e se pós-graduar em jornalismo. Do ponto de vista corporativista, para a categoria seria muito ruim a profissão rebaixada a um nível pré-acadêmico. Tendo dito isso, faço a ressalva de que há jornalistas sem diploma que prestam grandes serviços e devem ser respeitados. Além do mais, o diploma é para exercício estrito de produzir reportagens. Ninguém precisa ter diploma para expressar opinião, obviamente. Voltando a uma questão mais abstrata, com as revoluções tecnológicas que iremos experimentar com cada vez mais intensidade nas próximas décadas, será que essa pergunta sobre o diploma fará sentido em 30 anos? Quem viver verá.
Rodrigo – Uma dica de livro, site/blog e lugar para conhecer.
Marcelo - Livro: “O livreiro de Cabul”. Encontrei-me com o personagem principal no Afeganistão e, embora ele próprio desaprove o que escreveram sobre ele, acho que é um livro fácil de ler e que ajuda a desvendar aquela região do mundo para quem não tem familiaridade. Blog? Deem uma olhadinha no meu, lá no site do SBT: www.sbt.com.br/jornalismo/blogmarcelotorres. Lugar para conhecer: vou sugerir uma cidade em que passei apenas um dia a trabalho e fiquei com imensa volta de voltar: Santiago de Compostela, na Espanha. Não deixem de experimentar o “polvo à galega”. Lá é barato e delicioso.
Rodrigo – Por falar em livro, você está lançando um. Fale um pouco pra gente.
Marcelo - Estou buscando uma editora para este livro que conta bastidores de algumas das minhas viagens mais interessantes. Nas páginas, também haverá muitas estórias que não couberam nas reportagens que produzi para a tevê. E tentei ainda desvendar um pouco do “fazer jornalismo de tevê” para quem se interessa pelo tema.
Rodrigo – Pode contar qual será o seu próximo grande projeto jornalístico?
Marcelo - Chama muito minha atenção o tratamento dado a imigrantes em países que ficam próximos à África. Gostaria de investigar mais os controles de imigração da Espanha, Itália e Grécia.




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